Halloween mineiro? Conheça como surgiram os 'fantasmas' que vagam por Belo Horizonte
Historiador explica que lendas populares, como a Loira do Bonfim ou o Capeta do Vilarinho, têm ligação com transformações na paisagem urbana de BH
Maria Papuda, Loira do Bonfim, Fantasma da Serra, Avantesma da Lagoinha e muitos outros. Você conhece os seres que assombram Belo Horizonte? Cercada de lendas, a capital mineira tem sua história contada pelos supostos 'fantasmas' que ainda vagam pelas suas ruas.
De acordo com o historiador Bruno Viveiros, algumas lendas remontam à época da construção da capital mineira, no fim século XIX. Ele conta que a cidade foi projetada para ser moderna e capaz de representar a cultura, política e economia de todo o estado de Minas Gerais. As transformações, as dores e a saudade do passado fizeram com que a população criasse histórias fantasmagóricas.
"A cada nova transformação, a cada destruição dos bens públicos do passado, dos pontos de referência, dos lugares de identidade da população tem uma perda. A dor e as narrativas dos fantasmas significam essa perda, essa dor. É um sentimento de saudade que vai ligar o belo-horizontino ao seu passado de origem", explica o professor.
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Viveiros esclarece que cada personagem apareceu em um momento diferente da história da cidade.
Conheça a história de 'fantasmas' de BH:
Maria Papuda
A Maria Papuda era uma mulher que vivia onde hoje é o Palácio da Liberdade. Ela foi expulsa de casa para que a nova sede do governo estadual fosse construída. Segundo a lenda, Maria Papuda amaldiçoou os futuros governadores de Minas. Para quem ela aparecia, morria.
Coincidência ou não, quatro governadores morreram dentro do palácio: Silviano Brandão (1902); João Pinheiro (1908); Raul Soares (1924) e Olegário Maciel (1933). Com medo de ser a próxima vítima, os governadores Juscelino Kubitschek, Israel Pinheiro, Tancredo Neves e Itamar Franco se recusavam a ficar no palácio após anoitecer.
Fantasma da Serra
Com a mudança da capital de Minas Gerais de Ouro Preto para Belo Horizonte, muitos funcionários públicos tiveram que deixar a antiga sede do governo e ir para a nova cidade. Mas, como muitos não queriam deixar Ouro Preto, sentiam saudade da terra natal. 'Nesse momento, você tem a criação do Fantasma da Serra, que é um antigo funcionário público que aparece sempre chorando, com saudade de Ouro Preto', diz Viveiros.
O historiador também conta que uma réplica do Pico do Itacolomi, uma formação rochosa localizada na divisa dos municípios de Mariana e Ouro Preto, foi construída na Praça da Liberdade no início do século XX. Segundo ele, a réplica tinha o objetivo de diminuir a saudade e a distância entre BH e a antiga capital mineira.
Loira do Bonfim
O historiador revela que a lenda da Loira do Bonfim aparece entre os anos de 1940 e 1950, quando havia uma maior presença de carros nas ruas. Segundo a crença popular, a mulher pedia carona para os motoristas para voltar para casa, que era o próprio cemitério. Ao chegar ao destino ela desaparecia entre os túmulos do lugar.
Os antigos motoristas de táxi, chamados de chofer, que levavam as pessoas até o bairro do Bonfim à noite, tinham medo e passaram a recusar as corridas para o bairro. Assim como os motorneiros, responsáveis pelas linhas de bondes que levavam até o Bonfim.
Avantesma da Lagoinha
A história do Avantesma da Lagoinha — um homem sem rosto, vestido de preto, que costumava sentar entre os trilhos dos bondes e descarrilhar os veículos — surgiu já no início da construção dos elevados do bairro.
"A destruição da praça Vaz de Melo, onde a gente tem uma maior movimento de ônibus, e o fim da linha de bonde fez surgir o Avantesma da Lagoinha. Ele era um antigo motorneiro que perdeu seu emprego e fica vagando pelo complexo de viadutos da Lagoinha", conta Viveiros.
Capeta da Vilarinho
O Capeta da Vilarinho surgiu na virada da década de 1980 para a década de 1990, em Venda Nova, região mais antiga que a própria capital. A lenda conta que houve um concurso de dança em uma quadra de funk no bairro Vilarinho. Um dos participantes era um homem desconhecido na região. Ao ganhar, ele levantou o chapéu e deixou à mostra dois chifres na testa.
Bruno viveiros explica como a história está relacionada com o preconceito em relação ao estilo musical. "Ele é um dançarino de funk em uma época em que estilo estava se popularizando, ao mesmo tempo que era mal visto pelas classes conservadoras da cidade. O endereço das quadras do Vilarinho foi durante muito tempo o principal palco das manifestações artísticas dos shows de funk em Belo Horizonte. Portanto, há a ideia da demonização desse ritmo, desse gênero musical associado a um espaço", esclarece o historiador.
Seriam os fantasmas de BH os personagens do Halloween mineiro?
Apesar da associação com os fantasmas norte-americanos, figura presente nas decorações e fantasias de Halloween nos Estados Unidos, a comparação deve ser feita com cuidado. "O Halloween é uma festa popular nos Estados Unidos que ganha espaço em cada vez mais regiões do mundo. Já os fantasmas de Belo Horizonte são específicos da nossa cidade, do nosso modo de ser, de agir, dos nossos anseios e medos", afirma.
Para o historiador, o fato da cidade reunir tantas histórias é uma manifestação cultural que deve ser celebrada. "Eu acho importante a gente tomar para a gente essa característica da nossa cidade. É uma forma da gente voltar a ter uma sintonia maior com Belo Horizonte, com os espaços públicos e com os bairros da capital, além de valorizar uma manifestação popular tão bonita, tão rica e cheia de memória", comenta.
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