Deus só frequenta igreja vazia
Em tempos como os nossos, de crise de fé, de crescimento da indiferença religiosa, de crimes por intolerância, fica a pergunta: quem faz mais mal à Igreja de Cristo: o comunismo, os bancos ou os pastores e padres?
A fé está na moda? Essa é, sem sombra de dúvidas, uma das perguntas mais provocativas para a sociedade atual. Se esse questionamento fosse feito a Nietzsche e a Freud, esses diriam, um pouco por lucidez, um pouco por rebeldia: “não, a fé está com os dias contados!”.
Para Nietzsche, Deus está morto. A modernidade, com seus antibióticos e com o seu desenvolvimento científico, matou Deus. A confiança na razão, em sua capacidade de iluminar o caminho na direção do progresso e de assegurar um sentido à jornada humana sobre a terra tornariam a sociedade imune ao “conto de fadas cristão” de que, no céu, todos (inclusive as pestes da sua sogra, vizinha e cunhado...) viverão felizes para sempre.
Para Freud, a consciência da “falta”, de que o divino nada mais é do que a persistência infantil de um “pai não castrado”, que tudo vê e cuida, dariam lugar a um indivíduo capaz de bancar o fato de que a vida é trágica e de que: não, o universo não conspira ao seu favor. Aliás nem você, na verdade. Porque todo mundo mente para si, na maior do tempo se sabota, e o “eu”, que nos habita, não é senhor em sua própria morada.
O que esses pensadores não suspeitavam é da grande capacidade de reinvenção da religião. Um pouco por causa da força genuína e transbordante da fé (não se esqueça que este é um texto escrito por um padre; eu “vendo” esse produto! hahaha). Um pouco porque na sociedade da meta, da prosperidade, do sucesso, a religião é uma commoditie, um produto de mercado. Bem disse Lacan, considerando a paranoia que os sufocos da vida costumam causar nas pessoas: “se no futuro haverá psicanalistas, eu não sei, mas certamente haverá padres”.
Gosto de pensar na perspectiva de duas falas de expoentes da cultura brasileira. Uma, a de velho moralista, “profeta do óbvio”, e a outra, de uma jovem atriz contemporânea. Supreendentemente, aquele por profecia, essa com a sua sagacidade, chegam a conclusões parecidas sobre “riscos do cristianismo”. Nelson Rodrigues afirmava: “sou um cristão ferrenho! Mas o que atrapalha a Igreja são os crentes e os padres”. Bruna Marquezine há um tempo disse, num podcast: “Jesus é um cara bacana, mas o problema dele é o fã clube”.
Em tempos como os nossos, de crise de fé, de crescimento da indiferença religiosa, de crimes por intolerância, fica a pergunta: quem faz mais mal à Igreja de Cristo: o comunismo, os bancos ou os pastores e padres?
Sim, é certo que estamos em tempos de histeria ideológica. Não há dúvidas de que há algo, na estrutura do mundo, que detesta o bem, o amor, a verdade (Jo 15,18). É fora de moda hoje dizer que se crê em Jesus. Se for evangélico então, aí...Passa-se do lugar de fala ao lugar de “cale-se”.
No entanto, depois de um exercício cristão pervertido das origens, após os escândalos realizados pelos excessos da Inquisição (Católica e Protestante), considerando inúmeros casos de violência cultural, revestida de evangelização, com tanto contratestemunho de gente que se torna religioso para “bater carteira” do órfão e da viúva ou para se esconder de si travestido de “plumas e de paetês”, a fé ainda está na moda? Será que Ofélia, na peça Hamlet, não tem razão ao dizer que é natural que “os pastores mandem todos ao céu com sacrifícios e construam para si mesmos um caminho de flores”?
Marx, a Teologia do não sei o que, a Ideologia disso ou daquilo são pouco perto do grande estrago que pode fazer um cristianismo afastado de um compromisso de amor, de justiça e de reconciliação.
Onde estão, afinal, nossas paróquias, igrejas e células alcançando os jovens sem perspectiva sobre si e sobre seu futuro? Onde está nossa defesa pela “família”, indiferentes aos baixos salários das professoras? Onde estão os cristãos, sinais e sacramentos do Cristo, com o aumento exponencial de autoextermínio entre policiais? Quis custodiet ipsos custodes? (Quem guardará os guardiões?). E nós, os “zelosos” cristãos e pastores, tomando café nos gabinetes, na segurança de nossas sacristias, fazendo dancinha no instagram ou no tiktok...
Talvez seja bom um pouco de indiferença do mundo, um pouco de rejeição aos modelos envelhecidos das grandes instituições. Na verdade, desconfio, que quanto menos genuíno, maior o circo. Talvez, Nelson Rodrigues tenha razão: “Deus só frequenta igreja vazia”...
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